:: Argumento
Eis o argumento do filme, que é a base do roteiro em elaboração: "O Rio de Janeiro é uma cidade em permanente atrito com a natureza. Ao longo dos séculos, morros foram dissolvidos, grandes aterros criados, vários túneis perfurados. A intervenção humana sobre a natureza modelou e remodelou continuamente esta cidade, orientou seu crescimento e definiu sua organização territorial, possibilitando tanto a sua instalação quanto seu desenvolvimento e expansão. Circular pelo Rio de Janeiro hoje é, por isso, também celebrar a técnica - construtiva, viária, paisagística, urbanística - que tornou esta cidade possível.
Por outro lado, a mesma técnica que viabilizou esta cidade contribuiu para a situação crítica em que ela se encontra hoje: a “febre viária” que reduziu os congestionamentos nos anos 1950-60 contribuiu igualmente para a fragmentação e estratificação (espacial e social) da cidade, e grandes obras de arquitetura (como o Pavilhão de São Cristóvão) varreram praças e espaços públicos, ainda que oferecendo novos ambientes de sociabilidade. De modo análogo, a disseminação e generalização de soluções e sistemas técnicos, cada vez mais simplificados e barateados (lajes de concreto, por exemplo), também contribuiu decisivamente para a intensa proliferação das favelas nos últimos decênios.
Tendo isso em vista, o que se propõe, com este filme, é fazer brotar na cabeça do espectador um pensamento crítico sobre a cidade do Rio de Janeiro, a partir do estabelecimento de uma relação entre a sua evolução urbana e o desenvolvimento técnico materializado em obras de arquitetura e engenharia que tiveram papel decisivo na conformação física-territorial da cidade e/ou para a definição da sua imagem urbana. O recorte temporal coincide com um arco que se estende dos anos 1950 (em geral considerado o período áureo da cidade) até o presente. Nesse arco estão compreendidas desde as obras de desmonte do Morro de Santo Antonio (administração Dulcídio Cardoso, 1952-4), às grandes obras viárias e urbanísticas que se seguiram à transferência da capital federal para Brasília, em 1960 (particularmente na administração Carlos Lacerda, 1961-5), além das grandes obras dos anos 70, sem deixar de lado as mais recentes. A maneira como a técnica e a cidade foram superando obstáculos e se produzindo mutuamente, ao longo dessas seis décadas – é essa idéia, em suma, que determina a tônica do filme.
Entende-se por técnica, aqui, a ação humana sobre a natureza, visando a evolução do modo de existência do homem e a satisfação das suas necessidades, sejam elas elementares ou não (Ortega y Gasset, Meditação sobre a Técnica). Atos, procedimentos e processos de construção, ferramentas e máquinas, materiais: tudo isso envolve uma prática inventiva, um “saber fazer” (techné) que, na sua raiz grega, se confunde com a própria criação artística.
Tomada por esse prisma, a história urbana do Rio de Janeiro revela-se particularmente fascinante: se no período colonial, o enxugamento de brejos e mangues foi fundamental para a instalação da cidade e a conquista do solo à natureza, com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, no início do século XIX, a cidade passou por modificações radicais tanto na sua aparência quanto na sua morfologia e estrutura urbana. Já no começo do século XX, as grandes reformas urbanísticas do prefeito Pereira Passos (1901-6) fizeram do Rio a imagem por excelência do projeto de modernização político-cultural identificado com a República. Mais adiante, no período compreendido entre os anos 1930 e 1950, o Rio tornou-se matriz da arquitetura moderna no país e sede de uma “escola de concreto armado” reconhecida internacionalmente, que fez surgir por toda a cidade túneis, pontes, viadutos, reservatórios d´água, obras hidráulicas e portuárias; edifícios altos e cinemas. Já nas duas décadas seguintes, a cidade se transformou para adequar-se ao crescente número de automóveis e fez nascer também obras pioneiras no uso do concreto armado aparente (Museu de Arte Moderna, projetado por Affonso Eduardo Reidy), e da estrutura metálica (edifício Av Central e Pavilhão de São Cristóvão, projetados respectivamente pelos arquitetos Henrique Mindlin e Sergio Bernardes).
Se considerarmos a evolução urbana do Rio de Janeiro, logo veremos, portanto, que não é de hoje que as questões técnicas vem se impondo como um desafio que permeia ações, práticas e políticas urbanas na cidade, e muitas vezes acabam se convertendo em atrativo fundamental para o uso dos seus espaços públicos e semi-públicos. Surpreendentemente, o papel da técnica permanece, ainda assim, subestimado na construção da história do Rio de Janeiro. O filme nasce, assim, da constatação da relação intrínseca entre a história da técnica e a história da cidade. Por vezes conflituosa, esta relação certamente não é exclusiva do Rio de Janeiro, mas não só é determinante nesta cidade como manifesta-se de maneira particularmente expressiva - e às vezes também dramática - aqui.
Por outro lado, o filme também se pauta pela suspeita de que a dissolução dessa relação, em tempos mais recentes, é uma das expressões mais evidentes do agravamento da crise urbana do Rio de Janeiro. Sem deixar de lado o seu objetivo didático, o filme deve explorar todas as possibilidades cinematográficas com o objetivo de sensibilizar o espectador, seja ele leigo ou não, para a “coisa humana por excelência” que é a cidade (C.Levi-Strauss, Tristes Trópicos), e fazer com que ele reveja criticamente espaços nos quais talvez circule cotidianamente."
Por outro lado, a mesma técnica que viabilizou esta cidade contribuiu para a situação crítica em que ela se encontra hoje: a “febre viária” que reduziu os congestionamentos nos anos 1950-60 contribuiu igualmente para a fragmentação e estratificação (espacial e social) da cidade, e grandes obras de arquitetura (como o Pavilhão de São Cristóvão) varreram praças e espaços públicos, ainda que oferecendo novos ambientes de sociabilidade. De modo análogo, a disseminação e generalização de soluções e sistemas técnicos, cada vez mais simplificados e barateados (lajes de concreto, por exemplo), também contribuiu decisivamente para a intensa proliferação das favelas nos últimos decênios.
Tendo isso em vista, o que se propõe, com este filme, é fazer brotar na cabeça do espectador um pensamento crítico sobre a cidade do Rio de Janeiro, a partir do estabelecimento de uma relação entre a sua evolução urbana e o desenvolvimento técnico materializado em obras de arquitetura e engenharia que tiveram papel decisivo na conformação física-territorial da cidade e/ou para a definição da sua imagem urbana. O recorte temporal coincide com um arco que se estende dos anos 1950 (em geral considerado o período áureo da cidade) até o presente. Nesse arco estão compreendidas desde as obras de desmonte do Morro de Santo Antonio (administração Dulcídio Cardoso, 1952-4), às grandes obras viárias e urbanísticas que se seguiram à transferência da capital federal para Brasília, em 1960 (particularmente na administração Carlos Lacerda, 1961-5), além das grandes obras dos anos 70, sem deixar de lado as mais recentes. A maneira como a técnica e a cidade foram superando obstáculos e se produzindo mutuamente, ao longo dessas seis décadas – é essa idéia, em suma, que determina a tônica do filme.
Entende-se por técnica, aqui, a ação humana sobre a natureza, visando a evolução do modo de existência do homem e a satisfação das suas necessidades, sejam elas elementares ou não (Ortega y Gasset, Meditação sobre a Técnica). Atos, procedimentos e processos de construção, ferramentas e máquinas, materiais: tudo isso envolve uma prática inventiva, um “saber fazer” (techné) que, na sua raiz grega, se confunde com a própria criação artística.
Tomada por esse prisma, a história urbana do Rio de Janeiro revela-se particularmente fascinante: se no período colonial, o enxugamento de brejos e mangues foi fundamental para a instalação da cidade e a conquista do solo à natureza, com a transferência da Corte portuguesa para o Brasil, no início do século XIX, a cidade passou por modificações radicais tanto na sua aparência quanto na sua morfologia e estrutura urbana. Já no começo do século XX, as grandes reformas urbanísticas do prefeito Pereira Passos (1901-6) fizeram do Rio a imagem por excelência do projeto de modernização político-cultural identificado com a República. Mais adiante, no período compreendido entre os anos 1930 e 1950, o Rio tornou-se matriz da arquitetura moderna no país e sede de uma “escola de concreto armado” reconhecida internacionalmente, que fez surgir por toda a cidade túneis, pontes, viadutos, reservatórios d´água, obras hidráulicas e portuárias; edifícios altos e cinemas. Já nas duas décadas seguintes, a cidade se transformou para adequar-se ao crescente número de automóveis e fez nascer também obras pioneiras no uso do concreto armado aparente (Museu de Arte Moderna, projetado por Affonso Eduardo Reidy), e da estrutura metálica (edifício Av Central e Pavilhão de São Cristóvão, projetados respectivamente pelos arquitetos Henrique Mindlin e Sergio Bernardes).
Se considerarmos a evolução urbana do Rio de Janeiro, logo veremos, portanto, que não é de hoje que as questões técnicas vem se impondo como um desafio que permeia ações, práticas e políticas urbanas na cidade, e muitas vezes acabam se convertendo em atrativo fundamental para o uso dos seus espaços públicos e semi-públicos. Surpreendentemente, o papel da técnica permanece, ainda assim, subestimado na construção da história do Rio de Janeiro. O filme nasce, assim, da constatação da relação intrínseca entre a história da técnica e a história da cidade. Por vezes conflituosa, esta relação certamente não é exclusiva do Rio de Janeiro, mas não só é determinante nesta cidade como manifesta-se de maneira particularmente expressiva - e às vezes também dramática - aqui.
Por outro lado, o filme também se pauta pela suspeita de que a dissolução dessa relação, em tempos mais recentes, é uma das expressões mais evidentes do agravamento da crise urbana do Rio de Janeiro. Sem deixar de lado o seu objetivo didático, o filme deve explorar todas as possibilidades cinematográficas com o objetivo de sensibilizar o espectador, seja ele leigo ou não, para a “coisa humana por excelência” que é a cidade (C.Levi-Strauss, Tristes Trópicos), e fazer com que ele reveja criticamente espaços nos quais talvez circule cotidianamente."
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